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Key e Gi: anestésicos viram superdrogas em baladas de Salvador

O fim de um relacionamento que durou três anos fez o estudante de Administração João* intensificar suas idas às baladas de Salvador. “Mas o som e as luzes da boate não me 
empolgavam mais”, conta. Quando um amigo lhe apresentou Key e Gi, a coisa mudou. “Hoje, somos inseparáveis. É a alegria de nossas baladas ”, emenda, em relação às suas duas novas “amigas”.
Key, neste caso, não é uma jovem. É o apelido dado a Cetamina (ou Ketamina), assim como Gi é o GHB (Ácido Gama Hidroxibutírico). As duas substâncias passaram a ser usadas com frequência em Salvador há pouco mais de cinco anos e são anestésicos usados na composição de drogas sintéticas – substâncias químicas artificiais, em vez de ingredientes naturais.


As duas drogas são consumidas em boates, raves, no Carnaval e em festas particulares, junto com as balas ou balinhas, apelido dado ao comprimido de ecstasy, substância já bem conhecida, produzida em laboratórios clandestinos na Europa e contrabandeada para o Brasil.
Foi justamente o LSD que o jovem Eric Geovane de Oliveira, 23 anos, utilizou no mês passado numa festa particular, a Aurora, rave que aconteceu em Abrantes, localidade de Camaçari, na Região Metropolitana de Salvador (RMS). Eric ficou sete dias desaparecido, sob efeito da droga.
Além do sumiço de Eric, ainda houve uma morte após a festa: o caso do paulista Jacques Paulo Garcia, 34, que passou mal e morreu no Hospital Menandro de Faria, em Lauro de Freitas, na RMS.

Primeira vez 
Nas baladas, Key, inalada como a cocaína, e Gi, produto em forma líquida, são usados costumeiramente para potencializar os efeitos das ‘balas’. João disse que a sua primeira experiência Key foi a pior de sua vida. “A sensação era de morte”, lembra. Ele estava numa boate com amigos e cada um já tinha usado o LSD. Foi então que a turma partiu para a Key.

“Inicialmente, fiz uma carreirinha fininha. Me senti flutuando, tudo ao meu redor ficou mais lento, as cores estavam mais vivas, o universo ao redor era outro, como se eu estivesse entrado numa outra dimensão”, conta.

Passado o efeito, João tornou a usar a droga. “Resolvi inalar um pouco mais do que já tinha feito. Foi o meu erro. Numa questão de segundos, as vistas estavam turvas, minha energia se esvaía, me sentia bastante triste, a sensação era tão ruim, que acreditava que estava morrendo”, relata.

Os amigos o levaram para um canto da boate e colocaram gelo na nuca do rapaz. “Daí, voltei ao normal e algumas pessoas demostravam preocupação, outras riam e diziam que eu caí no ‘buraco’ (nome dado a quem passal mal com o efeito da Key)”.

Apesar do susto, João continua usando a droga. “Desde que usei, há um ano, isso só aconteceu uma vez. Agora, já tenho as manhas”, conta o universitário, que compra Ketamina em uma loja de produtos veterinários ainda em estado líquido. A Ketamina é usada para sedar animais de grande porte, como cavalos.

“Não é comercializado sem receita. Tem que pegar na máfia”, revela. O preparo é feito em casa e, em seguida, já em pó e com a aparência da cocaína, a droga é ensacada ou colocada num dosador de sal. Apesar de tudo, João não se considera dependente. “Uso em ambientes apropriados para isso, por causa das músicas, luzes, clima, como boates, raves, Carnaval e em festas particulares. Se fosse dependente, eu usaria até em festa de batizado ou aniversário de criança”, ironiza.

Combate 
Embora cada vez mais frequentes, o delegado Alexandre Galvão, do Departamento de Repressão e Combate ao Crime Organizado (Draco), diz que a Bahia tem um consumo baixo de drogas sintéticas, como Key e Gi. “As nossas grandes apreensões são de maconha e derivados da cocaína. Temos investigações de pessoas que trazem as drogas para a Bahia”, diz o delegado.

Segundo ele, essas drogas chegam à Bahia de diversas formas. “Pelas encomendas trazidas pelos Correios, pelas vias de transporte mais comuns: carro, aeroporto, barco. Normalmente, vêm da Europa e passam por São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro”, aponta Galvão.

O delegado explica a dificuldade de apreensão desse tipo de entorpecente. Geralmente, essas drogas não são consumidas em qualquer lugar, como a maconha, cocaína ou crack. “São usadas em festas particulares, o que dificulta o acesso da polícia ao local”, explica o delegado. É preciso autorização judicial para entrar.

Algumas delas, como o ecstasy, constam na lista de produtos ilícitos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Mas, a Cetamina (ou Ketamina), assim como o Gi, o GHB (Ácido Gama Hidroxibutírico), ainda não fazem parte da relação.

“Mas isso não significa que a polícia está omissa. A exemplo do anestésico para cavalos, durante uma abordagem, se o indivíduo não estiver com um receituário ou não for dono de uma loja de produtos veterinários, poderá se caracterizar como venda ilegal de medicamentos, e isso pode constituir tráfico de drogas”, declara.

Combinações 
Apesar das tentativas da polícia e de o consumo ser considerado baixo, quem usa a droga já encontrou formas de deixá-la ainda mais agressiva, fazendo combinações. Para uma sensação “ainda mais prazerosa”, os baladeiros misturam Key com outras drogas e até com medicamentos.

“A intenção é a busca de um prazer mais intenso. Às vezes, faço um Calvin Klein (mistura da Key com a cocaína) ou Spacekey (Key e ecstasy em forma de bala triturada) ou então a Tereza Cristina (Spacekey com Viagra, estimulante sexual)”, diz João.

Gi 
Estudante de Direito, Paulo* também costuma usar a dupla Key e Gi. “Minha (droga) preferida é o Gi e usei na Aurora. Enquanto a Key deixa a gente mais retraído, o Gi tem os mesmos efeitos da bala, que deixa a pessoa agitada. A pessoa fica ainda mais sexual e a ereção é involuntária”, relata.

O Gi não é vendido em lojas. O produto chega de São Paulo, via Sedex, através de um site de compras. Normalmente, uma quantidade é colocada num frasco vazio de descongestionante nasal. Depois, a substância é diluída.

Não há doses seguras. Transparente, sem cheiro e com um leve gosto salgado, o GHB tem sabor menos perceptível que os dois outros compostos, que têm um contato ácido. O efeito da droga começa após dez minutos e pode durar até seis horas. Em pouca quantidade, pode dar a sensação apelidada de câmera lenta.

Por conta da elevação da dopamina, cria a ilusão de felicidade. Em doses maiores, causa desorientação e sono (sinal de reação à grave intoxicação). Ácido forte, ele também desidrata o corpo e todo tecido com que tem contato. *nomes fictícios.

Substâncias podem levar à morte, apontam peritas do DPT
Até 2008, as drogas que chegavam até o laboratório do Departamento de Polícia Técnica da Bahia (DPT) eram somente maconha, cocaína, ecstasy, lança-perfume (cloreto de etila). Duas peritas que trabalham lá, no entanto, perceberam uma mudança durante o Carnaval.

O cloreto de etila, que é uma droga proibida, sumiu por conta das apreensões. Além disso, a importação da Argentina já tinha se tornado inviável. Foi quando acharam um substituto. “Começamos a receber outros frascos de perfumes. Pesquisamos e deu diclorometano, um solvente que a gente usa em laboratório”, explica a perita Marisa Fontainha, do Laboratório Central do Departamento de Polícia Técnica (DPT).

À época, o consumo cresceu e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) colocou o diclorometano como substância proibida para uso. “Mas não proibiu totalmente, porque os laboratórios precisam”, declara a também perita Márcia Portela que, junto com Marisa, atua há 20 anos no DPT.

Para Marisa, outra explicação para o surgimento das drogas sintéticas está relacionada à cocaína. “Houve o apogeu da Aids, na década de 1980, quando a droga era injetável, e o estado começou a distribuir seringas. Então, a cocaína passou a ser inalada, causando menos riscos, e a droga entrou na lista de proibidas pela Anvisa, assim como é hoje o ecstasy. Logo, produziram outras drogas sintéticas, que ainda não são proibidas”, diz Marisa.

As peritas apontam que o uso de drogas sintéticas pode levar à morte. “Quem usa o GHB, por exemplo, pode apagar. O corpo desacelera, por que são anestésicos, e a substância age em todos os órgãos vitais, podendo a pessoa ter uma parada respiratória ou cardíaca”, explica Márcia.

“Na verdade, não há uma garantia de quem está comprando se realmente está pagando pela substância desejada. Nem quem vende tem essa garantia. Somente o químico que produziu a droga tem conhecimento da dose”, complementa.

“Antigamente, a única droga sintética que se tinha conhecimento era o ecstasy. Hoje, é misturado com LSD e outras substâncias, um verdadeiro coquetel”, detalha.

‘Se eu morresse, a minha dor acabaria ali’
Sete dias após desaparecer durante a rave Aurora, realizada em Vila de Abrantes, em Camaçari, na Região Metropolitana de Salvador (RMS), o jovem Eric Geovane de Oliveira, 22 anos, foi encontrado dentro de uma fazenda da região próxima de onde a festa aconteceu. Na noite anterior, uma das pessoas que estavam participando das buscas avistou Eric e, na manhã seguinte, o caseiro de uma fazenda o localizou.
Nem o frio, a fome, o cansaço ou o desespero de estar em um local desconhecido deixaram Eric mais aflito do que a preocupação com seus familiares. “Se eu morresse, a minha dor acabaria ali. Mas a dor da minha família iria durar quanto tempo?”, questionou-se, em entrevista ao CORREIO no mês passado.

O jovem, que neste ano participou de quatro raves - eventos que costumam reunir milhares de pessoas que, assim como ele, curtem música eletrônica -, não imaginava que a sua primeira participação na Aurora se transformaria em um pesadelo. E daqueles piores já vividos. Não podia presumir também que as drogas sintéticas, que usava com frequência nas festas, pudessem lhe tirar a consciência ao ponto de fazê-lo procurar abrigo em uma mata, depois de acreditar que estava sendo perseguido por pessoas estranhas.

As substâncias responsáveis por causar alucinações no jovem estavam no LSD e no ecstasy. “Eu tinha acabado de chegar e estava totalmente lúcido. Estava pegando a festa pela metade e queria curtir o clima. Era o horário que as melhores músicas e os melhores DJs estavam se apresentando”, conta ele que tomou um LSD inteiro, misturando com um comprimido de ecstasy.



*Correio da Bahia

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