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O adeus ao Negro Gato

Luiz Melodia nasceu e foi criado no morro do Estácio, onde surgiu também a Escola de Samba Estácio de Sá. Era filho do sambista Oswaldo. Mas ele foi muito além do samba. “Ele bebeu também da influência americana do rock, do blues e do soul. Melodia transgrediu o que se esperaria de um negro gato vindo do morro carioca nos anos 1960”, diz Hagamenon Brito, colunista e crítico de música do CORREIO.
O compositor, cantor e músico carioca morreu na madrugada de ontem, aos 66 anos, às 5h, no Rio de Janeiro, no Hospital Quinta D'Or, em razão de complicações de um câncer que atacou a medula óssea. Melodia chegou a fazer um transplante de medula óssea e resistiu ao procedimento, mas não vinha respondendo bem à quimioterapia.
O câncer voltou e o estado de saúde se agravou bastante quinta-feira. O velório aconteceu ontem, a partir das 15h, restrito à família, na sede da Estácio de Sá. Às 16h, os fãs puderam entrar. O enterro será hoje, às 10h, no cemitério do Catumbi. Guto França, que foi produtor de Luiz Melodia por 35 anos, lembrou o do último show do músico. “O último show que fizemos foi em Jaú, dia 9 de julho do ano passado. Ele passou mal. Ao chegar no Rio, ele fez exames com o médico e foi diagnosticado o câncer de medula”, explicou França ao jornalista Mauro Ferreira, do G1.
Segundo o produtor, Melodia, que havia sido submetido a um autotransplante, estava animado com um projeto de um novo CD. França informou que o cantor e compositor deixou um DVD inédito.
Zeca Pagodinho foi um dos primeiros a se manifestar nas redes socias, ontem pela manhã. “Muito triste acordar com uma notícia dessa. Essa semana morreram grandes. Morreu Guaraci do Violão, da Velha Guarda do Império. O Brasil do jeito que está, ainda perder um Luiz Melodia, é uma coisa muito ruim”, lamentou o amigo Zeca Pagodinho, que gravou com ele Poeta do Morro, no álbum Ao Vivo com os Amigos, que o sambista lançou em 2011.
Pérola Negra
A estreia do músico como compositor foi marcada pelo lançamento da clássica Pérola Negra na voz de Gal Costa, em 1971. Em 1972, Maria Bethânia lançou o álbum Drama, que tinha outra composição dele: Estácio, Holy, Estácio. “Se alguém quer matar-me de amor/ Que me mate no Estácio” era o verso que marcaria a música.
Estava aberto o caminho para Melodia lançar, em 1973, o próprio álbum, pela gravadora Philips. O título do disco não poderia ser outro: Pérola Negra, que confirmaria o status de clássico à canção. “Pérola Negra é uma mulher. Mas tinha composto pra uma menina que eu namorava na época em que estava servindo o Exército. A mulher brasileira é uma fonte, posso dizer assim, de inspiração em cinquenta por cento das minhas composições”, disse o músico em uma entrevista ao Fantástico.
Os laços de Melodia com a Bahia eram extensos e iam muito além daqueles que tinha com as duas cantoras que lhe deram projeção : além de ter sido casado por mais de 40 anos com a baiana Jane Reis, até o fim da vida, ele era muito amigo do poeta Waly Salomão (1943-2003), nascido em Jequié. Foi Waly que apresentou Melodia a Gal. Por um tempo, o músico viveu em Salvador e em Itaparica com Jane.
Apesar de influenciada pelo samba, a estreia fonográfica de Melodia trazia influência dos mais diversos gêneros, com tons de tropicalismo, choro, soul e blues. Dali, saíram algumas das canções que marcariam sua carreira, além das já citadas Estácio, Holy, Estácio e Pérola Negra.
Duas delas eram Vale Quanto Pesa (Sou forte feito cobra coral/ Semente brota em qualquer local...) e Farrapo Humano (Eu choro tanto me escondo e não digo/ Viro um farrapo tento suicídio...). As duas, décadas depois, seriam gravadas por músicos de gerações mais recentes: a primeira ganhou versão em rock'n'roll do Barão Vermelho e a segunda virou reggae num dueto entre Melodia e os mineiros do Skank.
Ainda na década de 70, lançou outros dois álbuns importantes, que deixariam outras canções marcantes: Maravilhas Contemporâneas (1976) e Mico de Circo (1979). No primeiro, estavam Juventude Transviada, Congênito e Memórias Modestas. No segundo, Presente Cotidiano. Nas décadas seguintes, o músico viveu momentos irregulares.
Revelou também sua qualidade como intérprete no disco Pintando o Sete, quando gravou Codinome Beija-Flor, de Cazuza (1958-1990). A gravação foi tema do casal Beija-Flor (Angelo Antonio) e Taís (Letícia Sabatella) na novela O Dono do Mundo e ganhou as rádios do país.
Nos anos seguintes, lançou álbuns como Felino (1983), Claro (1987), 14 Quilates (1997) e Retrato do Artista Quando Coisa (2001), já sem a regularidade do início da carreira. Seu último disco foi Zerima (2014), depois de onze anos sem um trabalho inédito. “Prefiro deixar que tudo aconteça até que chegue o momento propício. Os fãs não cobravam, mas mostravam que estavam com saudade de algo novo. E aí chegou a hora”, disse ao CORREIO, na ocasião do lançamento.
Despedida
Nas redes sociais, artistas lamentaram a morte do músico. Gilberto Gil publicou uma foto ao lado de Melodia. “Notícia triste na manhã de sexta. Descanse em paz, @luizmelodia”, escreveu no Instagram. Karol Conka lembrou de quando cantou Amanhecer, em 2012, ao lado do músico. “Falece uma lenda da música brasileira”, disse Conka. “Vira Lata do meu coração”, escreveu a cantora Céu numa das várias fotos que postou em seu Instagram. Zezé Motta disse estar com o “coração estarrecido”. “Vou sentir sua falta”, escreveu Maria Gadu. Gal Costa também postou uma foto com o amigo: “Te amo, minha pérola negra”. “Tanto político corrupto aí fazendo cagada e gozando saúde enquanto perdemos o grande Luiz Melodia. Dá pra trocar? #rip”, disse a paraense Gaby Amarantos.

*Correio da Bahia

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