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Adeus, cartela de papel: Zona Azul em Salvador vai ser pelo celular

Quando o motorista Heloísio Machado, 62 anos, sai de carro, já sabe que terá duas dificuldades. A primeira é achar um local para estacionar, em algumas regiões da cidade. A segunda é – onde tem Zona Azul – encontrar um guardador de carro. 

"Muitas vezes, os flanelinhas não estão no local”, dizia ele, enquanto deixava o veículo na Zona Azul que fica no canteiro da Avenida Garibaldi, na manhã desta quarta-feira (25). Pois o que seu Heloísio não sabe é que essa situação deve mudar em breve – vai estar disponível na palma da mão.

Até o fim desse semestre, a cartela da Zona Azul será digital em Salvador – ela será vendida por aplicativos para smartphone. A novidade vai ser seguida de um período de doze meses de adaptação e, depois, será o fim da era das cartelas de papel. Ao final de um ano, só serão vendidas cartelas digitais.

Por isso, daqui para o fim de maio, a Transalvador vai publicar um chamamento público para as empresas que se interessarem em homologar seus aplicativos para a comercialização da cartela. Segundo o superintendente da Transalvador, Fabrizzio Muller, a ideia é sanar justamente problemas como o de seu Heloísio – que nem sempre encontra o guardador – ou de evitar que isso seja usado como justificativa por quem não paga.

“A Transalvador identificou que existia um serviço que mal avaliado pela população, então iniciamos uma pesquisa de mercado e um estudo mais avançado para identificar qual seria a melhor solução. A gente acha que a população vai aprovar esse novo modelo”, adianta Muller.

Atualmente, existem 11.359 vagas de Zona Azul em toda a cidade, mas a Transalvador tem previsão de criar outras 500 vagas até o final do semestre. Só no ano passado, foram 14.596 notificações por estacionamento irregular em áreas de Zona Azul – seja porque os motoristas não tinham cartela ou porque estavam com a cartela vencida.

Como vai funcionarForam três anos de estudo: servidores do órgão de trânsito procuram soluções em cidades nacionais e internacionais, a exemplo daquelas que usavam parquímetros. Chegaram aos aplicativos porque, na avaliação da administração municipal, seria uma escolha mais funcional e que não traria custos para a prefeitura.

Além disso, haverá uma economia de até R$ 147 mil – custo da impressão das cartelas no ano passado – aos cofres municipais. “E também elimina um problema que temos encontrado que é a falsificação da cartela”.

O aplicativo, na verdade, não será da prefeitura, mas das empresas desenvolvedoras. Pelo chamamento – que deve ficar até 30 dias aberto, após a publicação no Diário Oficial do Município – mais de uma empresa poderá ser selecionada. Cidades como São Paulo (SP), que já contam com a Zona Azul digital, com frequência têm bem mais do que isso – a capital paulista, especificamente, conta com 14 aplicativos.

Os diferentes apps serão válidos em todas as áreas da cidade. “Serão escolhidas aquelas que atenderem todos as especificações, que não dá para dizer quais são porque é parte do documento que todas saibam dos critérios ao mesmo tempo”.

Guardadores continuam A figura do guardador sindicalizado, contudo, não deve desaparecer das áreas de Zona Azul. Hoje, eles são cerca de 800. A diferença vai ser mesmo na forma como as coisas vão funcionar: atualmente, o Sindicato dos Guardadores de Veículos (Sindguarda) compra as cartelas e revende para os usuários. Do valor, 40% fica para a entidade.

Durante os 12 meses de adaptação, contados a partir da data que o primeiro aplicativo começar a funcionar, as cartelas de papel ainda serão disponibilizadas. Esse também será o prazo que a Transalvador dará ao sindicato para que a entidade desenvolva alguma alternativa tecnológica para a venda da cartela virtual.

“No período posterior aos 12 meses, o sindicato tem que estar também preparado e com tecnologia para fazer a venda aos usuários”, diz Fabrizzio Muller, que cita outros formatos, como a venda por meio de máquinas eletrônicas.

Seja lá qual for a escolha, a alternativa terá que ser desenvolvida pelo Sindguarda e aprovada pela Transalvador. “Muitos dos guardadores já fazem isso há muito tempo e a gente fez questão de integrá-los na solução, porém, eles não serão mais exclusivos. O que a gente não quer é esse monopólio, que o usuário dependa da presença física do guardador. Se ele quiser usar ele usa”.

A princípio, não haverá mudança nos preços. Os valores da Zona Azul continuam os mesmos – o estacionamento por duas horas, por exemplo, fica R$ 3. Só que, agora, o motorista poderá comprar créditos – tanto por cartão de crédito ou débito quanto por boleto bancário – pelo próprio celular.

Com cada empresa desenvolvedora de aplicativos, será ficará o mesmo valor que hoje o Sindicato dos Guardadores de Veículos (Sindguarda) recebe – 40%. A fiscalização será feita pelos agentes da Transalvador observando as placas de veículos. Segundo Fabrizzio Muller, os servidores vão receber atualizações em tempo real no sistema do órgão de trânsito.

Procurado pelo CORREIO, o presidente do Sindguarda, Melquisedeque Sousa, não foi localizado.

Usuários aprovam e guardadores esperam treinamento
O comerciante Maridalton Barreto, 62 anos, sempre tem em mãos um aparelho celular com conexão à internet. Para ele não seria um problema, por exemplo, pagar a Zona Azul na ausência de algum guardador de veículos. No entanto, ele se preocupa com outros motoristas que nem sempre têm acesso fácil à tecnologia.

"Eu acho que vai ser bem funcional, pode facilitar bastante o processo, mas muita gente não tem uma boa conexão, então pode ser complicado para alguns. Outra preocupação é com os trabalhadores. Para onde eles vão?", questionou o comerciante.

Esse é o mesmo pensamento do guardador Edvaldo Conceição, 48, que já trabalha em Zona Azul há 20 anos. A notícia do lançamento do aplicativo, conta Edvaldo, já ronda entre os profissionais que, inclusive, andam apreensivos com o que pode acontecer com eles.

Na opinião de Edvaldo, o aplicativo é funcional para os motoristas, mas ele sugere que seja feita uma "reciclagem" dos profissionais para que eles não sejam totalmente substituídos pelo software.

"Precisamos continuar levando o pão para casa", diz o guardador Edvaldo.

O motorista Heloísio Machado, 62, também acredita que o aplicativo pode facilitar a vida dos condutores. "Com o aplicativo em mãos vai facilitar muito. Mas não consigo acreditar que todos vão conseguir usar, pode demorar algum tempo para isso", considera.

Em nota, a Polícia Militar reforçou que equipes da corporação fazem a segurança diariamente na cidade, inclusive nas regiões de Zona Azul. Em caso de extorsão por guardadores não sindicalizados – os flanelinhas – “a PM orienta que as vítimas que observarem suspeitos, ou ações delituosas no local, liguem para o 190 e informem a situação. É importante que registrem a queixa na delegacia da área, pois o policiamento é estabelecido de acordo com a mancha criminal”.

Em São Paulo, aplicativo avisa também quando o tempo da Zona Azul vai vencer

Uma das cidades que já opera com a cartela de Zona Azul digital, São Paulo (SP) conta com 14 opções de aplicativos para os motoristas. Uma delas é justamente a Estapar, que faz a gestão da Zona Azul em 18 cidades brasileiras em quatro estados (além de São Paulo, a empresa está presente em Minas Gerais, Espírito Santo e Santa Catarina).

Desde 2012, a Estapar tem o aplicativo Vaga Inteligente, que permite pagamentos tanto na Zona Azul quanto em estacionamentos privados administrativos pela companhia (a exemplo de shoppings, aeroportos, arenas e prédios comerciais”. Em nota enviada ao CORREIO, a Estapar explicou que a empresa é pioneira no desenvolvimento da tecnologia mobile para pagamentos dos serviços de estacionamento.

Segundo a Estapar, através do aplicativo, os motoristas têm diversas facilidades, que vão desde a compra, renovação e regulação do tíquete do estacionamento rotativo ao controle das transações dos últimos 180 dias, através de extrato e tíquetes emitidos.

Com o aplicativo, é possível localizar onde o carro está estacionado por GPS e até programar um alerta no celular para que o motorista saiba do vencimento da cartela minutos antes. “Caso ainda seja possível, o motorista consegue renovar o uso da vaga pelo app”, dizem.

Só em São Paulo, o aplicativo tem 700 mil usuários. Gratuito, pode ser acessado por smartphones ou tablets que utilizem tanto o sistema iOS (Apple) quanto Android. “Com o aplicativo da Estapar, é possível efetuar a reserva antecipada de vagas, tornar-se mensalista e pagar o tíquete nos estacionamentos da rede, além de traçar a rota até o seu estacionamento de destino. O Vaga Inteligente também possibilita pagar o estacionamento rotativo nas 18 cidades em que a Estapar administra a Zona Azul”, completa a empresa. 




*Correio

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