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Deus também tá na rede: igrejas investem em tecnologia, marketing católico e redes sociais

O whatsapp de padre Edson Menezes, reitor da Basílica do Senhor do Bonfim, foi bombardeado por mensagens, no último dia 22. Especulava-se que o incêndio na Marina do Bonfim, na verdade, acontecia na igreja. “Depois, soubemos que o fogo não era aqui. É assim: se queremos saber de alguma coisa, colocamos nos grupos”, conta o padre. A rotina do reitor com os grupos é, inclusive, bastante agitada - ele participa de todos os 21. Na igreja, a tecnologia não só aproxima como começa a reger a liturgia - uma mostra do comportamento mais moderno de parte dos 372 templos católicos de Salvador.

A preocupação de padres e colaboradores com a tecnologia começa a ficar evidente, pelo menos entre a comunidade católica, em 2010. A crença é que ela reunirá fiéis distantes, fidelizará os já frequentes, sensibilizará os jovens. No caso do Bonfim, o uso do aplicativo de mensagens é apenas um sinal de que basílica têm incorporado a tecnologia no dia a dia. E de que a igreja de 264 anos quer não só envelhecer bem, como se manter jovem, pop, indiferente ao peso da idade. Tem conseguido.

Na Basílica desde 2009, padre Edson fez da igreja um exemplo entre os demais templos soteropolitanos. Investiu na criação de um site, contratou, em 2013, uma empresa especializada em marketing católico (leia mais ao lado) e apostou na presença da basílica nas redes sociais. Até um canal de TV online, com mensagens e transmissões de missas, foi criado, em 2014. Diariamente, a Amex, gestora da rede online, calcula a audiência média de 450 pessoas.

15 mil fitinhas online
Grande exemplo é a novidade anunciada em julho de 2016: a igreja lança um aplicativo só seu e o gradil da Basílica deixa de ser o único depósito das tradicionais fitinhas. A partir daí, os fiéis podem amarrar virtualmente fitas nas grades. Pelo menos 14,9 mil pessoas já baixaram o aplicativo, segundo a Amex, responsável pelo dispositivo. A estimativa é de que todas elas tenham amarrado fitinhas.

O aplicativo gratuito possibilita, ainda, os devotos acessarem informações sobre missas, serviços e contatos. “Se a gente não cria, as pessoas não se aproximam. Mas, se a gente inova, os jovens, principalmente são incentivados a vir”, defende padre Edson. A próxima aposta deve ser a transmissão de missas pelo Facebook, na página já existente da igreja, curtida por 8,7 mil pessoas.

“Não começamos ainda porque é muita coisa para administrar”, conta, aos risos. E, além de empenho, é preciso investimento. Para criar um site e um aplicativo, como fez a Igreja do Senhor do Bonfim, é preciso desembolsar, no mínimo, R$ 31 mil. O investimento pode chegar aos R$ 50 mil – R$ 20 mil pelo site e R$ 30 mil pelo aplicativo.
Desde que não causem prejuízos ou descaracterize a estrutura, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) não se opõe à instalação de novas tecnologias em igrejas tombadas como a do Senhor do Bonfim, um dos 73 templos protegidos pela União em todo o estado. 

O instituto informou, inclusive, acreditar que a tecnologia faz parte do processo de adequações, adaptações e soluções de problemas. Mas, em cada caso, são analisadas as tecnologias mais apropriadas, o que demora, em média, 45 dias.

A ordem é se adequar
Iniciativas como a do Bonfim são respostas aos novos moldes sociais, avalia o Arcebispo de Salvador e primaz do Brasil, dom Murilo Krieger. “Precisamos reconhecer que a vida mudou, que a linguagem do ser humano de nossos tempos tem características próprias. Ora, se a Igreja recebeu uma ordem de Jesus: ‘Ide pelo mundo todo e evangelizai!’, como ficar indiferente às novas tecnologias?”, questiona. A mensagem ecoa a proposta do Papa Francisco, defensor de uma Igreja em saída, ou seja, que rompa com os limites tradicionais e físicos das paróquias.

Os jovens, ainda segundo dom Murilo, são impactados pelas novidades, embora defenda que “essas tecnologias nunca poderão possibilitar uma profunda experiência de Deus”. Nos encontros do setor jovem da Arquidiocese de Salvador, mesmo involuntariamente, o tema tem sido debatido. 

Afinal, como os jovens são influenciados e agem sobre o processo? “Indiretamente, temos falado sobre esses assuntos, porque entendemos que essa é a forma que nós temos hoje mais rápida de atingir a juventude”, acredita Anderson dos Santos Oliveira, coordenador da ala.

Não há estimativa oficial do número de paróquias de Salvador que possuem, por exemplo, grupos de jovens católicos. Nem mesmo de quantos deles frequentam os encontros dos jovens arquidiocesanos. Mas, um dos indicativos da participação dos mais novos em iniciativas religiosas é a Jornada Mundial da Juventude. Somente na última edição do evento, em 2013, no Rio de Janeiro, participaram 3,5 milhões de jovens.

Denilson Jaqueira tem 26 anos e, há 8, participa da Missão Divina Face, projeto voltado para evangelização de outros jovens. No início deste ano, entrou para a coordenação do setor da Juventude da Arquidiocese de Salvador. Lá, começou a aplicar, e aprender, um pouco do uso da tecnologia para fins religiosos. “O aplicativo do Bonfim é muito conhecido entre nós. É um exemplo de como o uso da tecnologia é importante. A gente precisa estar onde as pessoas, os jovens, estão”.

Exemplo 
E, para aliar tecnologia às igrejas e, assim, aproximar fiéis, as igrejas têm como inspiração o Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, em São Paulo. Trabalham no setor de marketing da catedral 140 pessoas; na área de tecnologia, 30. Em média, são 2,4 mil funcionários. 

O resultado é uma máquina católica de inovação: já são 11 aplicativos lançados - entre eles, um de realidade aumentada. E um estouro nas redes sociais digitais: apenas do Facebook, a página do santuário tem 73,3 mil curtidas.

O sucesso deve muito ao pioneirismo, já que o santuário inaugurou precocemente a prática do marketing dentro das igrejas, em 1999. “Naquela época, a própria congregação não entendia como isso poderia acontecer. Depois, entendeu-se que utilizamos o marketing de maneira muito sustentável, para divulgar a doutrina da igreja”, lembra a gerente de Marketing Solange Parron. Além dos aplicativos, das redes sociais e do site, o santuário possui uma rádio interna, sistemas de som e câmeras distribuídas nos 143 mil m² de área do pólo religioso.

Tecnologia ajuda a reduzir despesas
No lugar dos folhetos de missa e ao lado de imagens de Jesus e Nossa Senhora, está uma presença pouco convencional. Quase como esquecido, está um objeto que destoaria na maioria das igrejas. Mas, na Paróquia Nossa Senhora da Esperança, no Stiep, faz todo sentido: é por meio da tela de projeção que surgem os slides com as orações do dia e as letras das canções, para espanto dos desavisados.

A novidade chegou em 2014, uma questão de adequação à tecnologia para a jovem paróquia de 34 anos. “Nosso mundo é midiático e, sem ferir a doutrina da igreja, precisamos juntar a religião à mídia para as pessoas interagirem mais”, conta o padre Valter Ruy. O pároco acredita que a mudança do analógico para o digital empolga os fiéis a participarem: orarem as rezas, cantarem as músicas.

Mais que isso: contribuiu para as despesas da igreja diminuírem. Por um projetor e uma tela, o custo médio é R$ 3 mil. Já para imprimir apenas os jornais dominicais, por exemplo, a despesa era de R$ 1,4 mil. A escolha pelo digital também ajudou a diminuir a impressão de avisos, agora disponíveis no Facebook e no Instagram da igreja.

À espreita de iniciativas como as igrejas do Stiep e do Senhor do Bonfim, a Igreja Nossa Senhora da Conceição da Praia, no Comércio, também foi lançada na rota da tecnologia. Tudo começou no dia 8 de abril de 2017, quando Marília Gabriela Dias se tornou juíza da irmandade que administra a igreja. Para ela, Nossa Senhora, rainha e padroeira do estado da Bahia, não recebia o reconhecimento necessário. O uso das novas mídias, acredita, era o que faltava. “Isso aqui é a história da Bahia, tudo começou aqui, precisamos contar”, declara.

No dia 18 de março, a primeira mudança: é lançado o site da igreja, com informações sobre a basílica, trechos das liturgias diárias e um tour virtual no local. O próprio ato de acender uma vela foi transformado pela novidade. Como já ocorria no Bonfim e em Aparecida, desde então, se tornou possível acender uma vela de oração sem precisar se deslocar até a igreja. Basta se cadastrar no site da basílica, clicar na opção “vela virtual” e mentalizar os pedidos ou agradecimentos. Amém. 

A tecnologia foi, ainda, incorporada à própria gestão. No lugar das duas câmeras que fiscalizavam a igreja, são espalhadas 32, e um sistema de alarme é implantado. Também foi instalada uma rede de wi-fi - por enquanto, apenas para funcionários. Com as mudanças, a administração também espera ver crescer o número de eventos, que varia conforme o mês. O custo de fazer um casamento ou uma formatura no local é de R$ 7 mil, segundo apurou a reportagem. “A igreja é uma empresa, porque ela têm tudo”, resume Marília.

Empresa atende Bonfim e Irmã Dulce
Até 2007, as igrejas, com exceção do pioneiro santuário de Aparecida, pouco investiam ou conviviam com a tecnologia. Nas paróquias, reinava o analógico, mesmo em uma era predominantemente digital. Em maio daquele ano, então, uma paulista mudou parte do cenário: criou a Amex, empresa de marketing e elaboração de conteúdo digital para igrejas católicas e instituições filantrópicas.

Religiosa desde a infância, Elaine Franco já trabalhava com entidades religiosas quando decidiu dar um passo à frente, expandir a área de atuação e alinhar a tecnologia, de uma vez por todas, à religião. A iniciativa surgiu em paralelo à popularização das redes sociais. “Antes, a igreja pensava no offline. Agora mudou, percebemos que para atingir o maior número de pessoas, precisamos nos aproximar delas”, lembra. E mudou tanto que 20 igrejas e cinco organizações de oito estados brasileiros já contrataram a empresa.

Na Bahia, a empresa chegou em agosto de 2010, contratada pelas Obras Sociais Irmã Dulce (Osid) para divulgar a instituição. Em dezembro de 2017, lançou o aplicativo das Osid, baixado por 489 pessoas. “A turma nova não tem Irmã Dulce na memória. A linguagem do mundo moderno está nos aplicativos, precisamos acompanhar se quisermos aproximar os mais jovens”, diz Mariana Pimentel, assessora Marketing do projeto. Hoje, a Amex também trabalha para o Santuário do Bom Jesus da Lapa, mas os projetos para o templo ainda estão em análise.

O crescimento da empresa ilustra o próprio reconhecimento do setor. Em 2016, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) criou uma premiação que inclui a internet em trabalhos destinados a valores humanos e cristãos. A instituição, fundada em 1950, realiza premiações de iniciativas desde 1967. Mas, até então, reconhecia projetos nas áreas de cinema, rádio, televisão e revistas.

“As novas tecnologias de comunicação têm oferecido às Igrejas um caminho novo de maior eficiência na apresentação de seus conteúdos. Em 2016, já estávamos em condições melhores para avaliar trabalhos explicitamente do mundo digital”, justifica o presidente da CNBB, dom Darci Nicioli. No mesmo ano, o aplicativo da Igreja do Senhor do Bonfim foi premiado na categoria. Na edição de 2018, o aplicativo da Osid estará no páreo. 



*Correio da Bahia





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