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DIABETES: 'É a doença do século XXI', alerta diretora do Cedeba

O número de brasileiros diagnosticados com diabetes aumentou 61,8% entre 2006 e 2016, de acordo com dados do Ministério da Saúde. Atualmente, mais de 13 milhões de pessoas convivem com a doença no país. Com o objetivo de alertar a população sobre os riscos, é celebrado, em 14 de novembro, o Dia Mundial do Diabetes.


"Diabetes é a doença do século XXI, porque é a doença do desenvolvimento, do estresse, que leva o indivíduo a uma série de complicações, inclusive à doença cardiovascular. Eu acredito que a gente ainda precisa muito desse Novembro Azul para fazer com que as pessoas se conscientizem da necessidade de tratamento", afirmou a diretora do Centro de Diabetes e Endocrinologia da Bahia (Cedeba), Reine Chaves.

Em entrevista ao Bahia Notícias, a profissional pontuou a possibilidade de subnotificação dos casos da doença, principalmente com relação ao número de mortes. Dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) mostram que o Brasil registrou crescimento de 12% no número de óbitos por diabetes entre 2010 e 2016 (veja aqui). "Eu ainda acredito que esse dado seja subestimado. Muitas vezes o indivíduo morre de infarto, que é a principal causa de morte de diabéticos, e não é colocado no atestado de óbito que era diabético", argumentou.

Reine falou também sobre os sinais e tratamentos do diabetes, além de consequências da doença, como o chamado pé diabético. 

Qual a importância da campanha Novembro Azul para prevenção do diabetes?

A principal questão é que 50% das pessoas que têm diabetes não sabem e desconhecem os sinais dessa patologia. Existem dois tipos básicos de diabetes. O diabetes do tipo 2 vai muito lentamente se propagando, então o diagnóstico já é dado muitas vezes com complicações. É esse diabético do tipo 2 que, quando tem diagnóstico, já apresenta a doença há 10 anos. Ele descobre em uma cirurgia, em um infarto, ou quando começa a ter infecção micótica com frequência. Quando a gente realiza uma campanha de alerta, há esse trabalho de falar a necessidade que o indivíduo com mais de 40 anos tem de fazer uma glicemia, que essa necessidade aumenta na medida que tem pai ou mãe diabético, que está ganhando ou perdendo peso de forma rápida, urinando muito... Todos esses são alertas para o diagnóstico de diabetes e, se a gente começar a trabalhar para difundir essas informações, é possível detectar precocemente a doença e evitar complicações que poderiam surgir.

Quais são as principais diferenças entre os dois tipos de diabetes e quais pessoas podem ser acometidas por cada um?

A diabetes tipo 1 acontece no indivíduo jovem. Ele nasce com a predisposição genética e, em determinado momento, ele pode ter um surto viral, que provoca uma agressão ao pâncreas e causa um processo inflamatório imunológico. Existe uma destruição das células do pâncreas, e ele deixa de produzir insulina. O diabético tipo 1 depende de insulina para sobreviver. O diabético tipo 2 não depende. Ele tem insulina aumentada inclusive, só que ela não age adequadamente. O pâncreas dessa pessoa perde progressivamente a capacidade funcional e deixa de produzir insulina de forma adequada. Normalmente, com medicação oral, esse paciente pode viver bem. A insulina só é necessária em um estágio muito avançado da doença. O diabético tipo 1, como perde a capacidade rápido de produzir insulina pelo pâncreas, o diagnóstico é imediato. Os sinais são beber muita água, urinar muito, perder ou ganhar muito peso e, onde a pessoa urina, dá formiga. Já o diabetes tipo 2 pega o adulto. Como é de forma muito lenta e progressiva, é preciso ficar alerta para os sinais.

Além da obrigatoriedade ou não do uso de insulina, quais as diferenças entre os tratamentos dos dois tipos de diabetes?

O diabético tipo 1 precisa de insulina para sobreviver, então esse é o único tratamento. Existem várias insulinas. O SUS dispensa a insulina humana, que existe na forma NPH e regular, ou seja, de ação intermediária e rápida. Existem análogos de insulina, que são moléculas purificadas que tentam se adaptar à insulina produzida normalmente pelo pâncreas. Elas existem na forma ultrarápida, lenta e ultralenta. Para o tratamento do diabético tipo 2, temos uma gama de medicamentos orais que vão atuar na resistência à insulina, a partir de diferentes mecanismos. Todos esses tipos de insulinas existentes também podem ser usadas pelo diabético tipo 2 em estágio avançado, quando o pâncreas não tem mais capacidade de responder às drogas orais.

Quais são as principais consequências do diabetes quando não tratado?

As consequências imediatas são complicações micro e macrovasculares. Há complicação na retina - no fundo de olho -, complicações na circulação - nos pés, nas pernas - e complicações nos vasos do coração - a possibilidade de um infarto é muito grande. Há ainda outras complicações do diabetes que são menos comentadas, mas não deixam de ser importantes. Uma é a disfunção cognitiva e a demência. Hoje a gente sabe que o diabético tem duas vezes mais chance de desenvolver depressão e pessoas com depressão têm duas vezes mais chance de desenvolver declínio cognitivo e doença de Alzheimer. Existe uma relação entre depressão, ansiedade e demência. Temos ainda o que a gente chama de distresse diabético, que é o estresse ou a angústia que o indivíduo vive ao ter o diagnóstico do diabetes e não conseguir manter a rotina do tratamento. É necessário testar glicemia todo dia, alimentação regulada, fazer exercício todo dia... Há um ritual de vida muito grande, e isso pode levar ao distresse diabético.

Uma das consequências que se fala muito é o chamado pé diabético. Por que esse problema requer tanta atenção?

O pé diabético é uma condição que o indivíduo desenvolve quando começa a ter progressivamente comprometimento da microcirculação associada ao comprometimento dos nervos periféricos. O indivíduo, por exemplo, está com a circulação deficitária e tem uma picada no dedo, um corte no pé ou machuca a unha... A circulação não acontece, e as células de defesa não conseguem chegar no local da infecção porque o caminho delas está obstruído por um processo de arterosclerose. O indivíduo também perde a capacidade de sentir a lesão. As duas coisas juntas fazem com que ele desenvolva um ferimento que aumenta e pode promover uma gangrena, infecção e até necessidade de amputação.

Dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) mostram que o Brasil registrou crescimento de 12% no número de mortes por diabetes entre 2010 e 2016. A senhora acredita que isso está mais relacionado ao aumento de casos da doença ou à falta de tratamento?

Acho que ambas as coisas. Inclusive, não só o aumento do número de casos, mas o aumento de detecção, porque é uma luta nossa. Eu ainda acredito que esse dado seja subestimado. Muitas vezes o indivíduo morre de infarto, que é a principal causa de morte de diabéticos, e não é colocado no atestado de óbito que era diabético. Ainda existe uma subnotificação. Diabetes é a doença do século XXI, porque é a doença do desenvolvimento, do estresse, que leva o indivíduo a uma série de complicações, inclusive à doença cardiovascular. Eu acredito que a gente ainda precisa muito desse Novembro Azul para fazer com que as pessoas se conscientizem da necessidade de tratamento. A gente vem de uma transição epidemiológica. O paciente tinha uma doença epidemiológica, tratava e curava. Hoje é difícil para o paciente saber que tem uma doença crônica e que vai ter que conviver com aquilo a longo prazo.

O Cedeba é um dos centros de referência no país para tratamento de diabetes. Como funciona o trabalho na unidade?

O Cedeba vai fazer 25 anos em 2019. Foi um centro criado exatamente com o objetivo de tratar de forma humanizada e com qualidade o paciente diabético. Além desse perfil, ele desenvolveu um trabalho de assessoramento às unidades de atenção básica de saúde e às unidades terciárias para capacitação de profissionais e desenvolvimento de protocolos clínicos para orientação na abordagem de pacientes diabéticos. É também um centro formador de profissionais. Nós temos residência médica, com ensino e pesquisa na área do diabetes. O Cedeba hoje é um centro completo em torno de assistência, ensino e pesquisa. Há também programas de educação para pacientes, através de cartilhas, vídeos e aulas. Esse trabalho de educação tem ajudado na conscientização acerca da doença. Hoje nós estamos evoluindo para estabelecer a referência para retinopatia diabética, para o pé diabético e o aprimoramento para outras doenças endócrinas.



*Bahia Notícias

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