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Representando quase 10% do salário mínimo, gás explodiu orçamento de brasileiros


Uma atividade básica da rotina de qualquer casa tem feito, nos últimos meses, os brasileiros passarem aperto. Cozinhar ficou caro não só pelo aumento no preço dos alimentos, mas principalmente pelo valor do gás de cozinha. O botijão atingiu, em abril, quase 10% do valor do salário mínimo, tornando- se o preço mais alto desde o início deste século.

Segundo a Agência Nacional do Petróleo (ANP), a média de preço do botijão de 13kg do Gás Liquefeito de Petróleo (GLP) no Brasil é R$113,48. O valor representa 9,4% do salário mínimo — patamar mais elevado desde 2007, ano em que o GLP custava R$33,06 e o salário mínimo era R$350.

O aumento significativo não é novidade e já vem acontecendo sucessivas vezes nos últimos meses. Especialistas que acompanham os dados apontam um acumulado de cerca de 30% na Bahia nos últimos meses. Considerando o período de um ano, o preço do gás variou, para cima, em 27,5%.

“A principal causa é o preço da matéria prima do gás, que é o petróleo. É um insumo que está em alta no mundo todo e que, necessariamente, impulsiona o valor de todos os seus derivados. O fato de ser um produto negociado internacionalmente, que tem seu preço em dólar e envolve conversão, também impacta”, explica o economista e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), Cleiton Silva.

O professor destaca que o aumento do preço do gás (27,5%) pode ser medido quando comparado, por exemplo, com a variação da inflação. Mesmo alto, o índice da inflação nos últimos doze meses foi quase a metade da variação do preço do gás, atingido 12%, de 2021 a 2022. Os itens da cesta básica, sim, tiveram variação semelhante ao preço do gás. Aumentaram em 28% no último ano. Aliados, os dois têm tornado o ato de cozinhar mais desafiador.

“São coisas que realmente afetam muito as famílias que vivem com um salário mínimo. Fica difícil cozinhar e isso reflete nos números. Já existem estudos que mostram que as famílias têm comido muito menos com o mesmo valor de salário do que em anos anteriores. Tem quem procure cozinhar menos vezes ou até procurar um substituto para o próprio gás, o que pode ser muito perigoso”, pontua Cleiton Silva, alertando para os riscos do uso de lenha e álcool, responsáveis por aumentar acidentes envolvendo queimaduras.

EFEITO CASCATA
Se o preço do gás pesa para os consumidores domésticos, impacta ainda mais aqueles que têm na comida a sua forma de sustento. Quem trabalha cozinhando precisa buscar saídas para manter seus negócios funcionando. É o caso da empresária Hilza Hecket, que trabalha há seis anos vendendo quentinhas de comida caseira, e diz enfrentar o pior momento desde que começou a trabalhar na cozinha.

“Está muito difícil. Já tive que repassar esse aumento várias vezes para o preço final dos clientes. Eles sentem, vem perguntar, questionar o aumento, mas não tem o que fazer”, conta. Segundo a empreendedora, o impacto com o preço do gás já vem sendo sentido desde o ano passado e se reflete no bolso. Se, na metade de 2021, o custo com gás era de R$ 500 mensais para a produção das quentinhas, a última conta de Hilza chegou a R$1.200 — um aumento de 140% em menos de um ano. Para manter o negócio, a chef de cozinha precisou apostar em outras estratégias.

“Precisei mudar um pouco o cardápio. Tirar um pouco as coisas assadas, colocar mais frituras, mudar a quantidade mínima de alguns pedidos como pães, para não perder tempo de forno”, relata. A empresária precisou, inclusive, investir em um equipamento especial na cozinha para tentar conter os gastos com o gás. “Comprei um forno específico porque sirvo pizza no restaurante e preciso conseguir assar mesmo com o gás nesse valor”, diz.

BAIANAS PASSAM APERTO
O aumento do GLP atingiu, também, as baianas de acarajé, patrimônio cultural imaterial do estado desde 2005. Sempre acompanhadas do botijão de gás em seus pontos de venda, elas pisaram no freio para suportar a aceleração dos últimos meses. Desde 1992 a baiana Dulce Marys, de 51 anos, é a responsável por gerir o ponto que antes era da mãe, na Praça da Sé.

Na rotina da baiana, são cerca de 10 botijões de gás por mês e um custo que hoje ultrapassa os R$ 1 mil. “Eu não posso passar o aumento para os clientes senão não vendo nada. O movimento já tá fraco, então não tem como aumentar”, conta.

Dulce segue vendendo seu acarajé a R$ 10, mas reduziu de 60 quilos de massa do bolinho para no máximo 40 quilos. O tamanho da frigideira também mudou para economizar azeite de dendê. “Tudo aumenta. Os produtos estão muito mais caros. Está muito difícil trabalhar”, reclama.

LUZ NO FIM DO TÚNEL
Com a situação cada vez mais difícil, qualquer boa notícia representa um alívio. Dessa vez, a boa notícia veio do anúncio da redução no preço do botijão, válido desde a último dia 2 de maio. De acordo com o Sindicato de Revendedores de Gás da Bahia (Sindrevgás), o gás ficará entre R$ 4,00 a R$ 5,00 mais barato.

A medida faz parte da política da Acelen, que opera a Refinaria de Mataripe, de rever os preços praticados a cada dia 1° do mês, podendo haver aumento ou diminuição no valor. Segundo o levantamento semanal da ANP, entre os dias 24 e 30 de abril, o botijão na Bahia era vendido, em média, por R$ 107,84. O valor mais caro do produto no estado foi de R$ 150 e o mais barato foi encontrado por R$ 92.





*Metro1

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