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Sem dinheiro para o gás, baianos se arriscam usando álcool e lixo para cozinhar


A catadora de materiais recicláveis Lucileide Pereira nunca teve tanta dificuldade para pôr comida na mesa quanto nos quatro últimos meses. Moradora de um barraco na comunidade de Vila Vitória, em Fazenda Grande IV, tem utilizado álcool, galhos e até lixo, como restos de resíduos plásticos, para acender a lenha onde cozinha, do lado de fora da sua residência. Isso porque não tem mais dinheiro para custear o gás de cozinha.

O mais recente dos sucessivos aumentos no preço do GLP gerou um valor médio do botijão em Salvador e Região Metropolitana de R$ 122, de acordo com o Sindicato dos Revendedores de Gás. Na Bahia, o preço flutua e, em média, custa R$ 127.

No mesmo período, cresceu a quantidade de acidentes com queimaduras. De acordo com a Secretaria da Saúde do Estado (Sesab), o número de queimados aumentou 18,75% na Bahia no primeiro trimestre de 2022 comparado ao mesmo período do ano anterior.

Enquanto em 2021 a quantidade de queimaduras registradas nos três primeiros meses do ano foi de 384, em 2022, o número saltou para 456. As queimaduras não são lesões de notificação obrigatória nos hospitais públicos da Bahia. Ainda de acordo com a secretaria, até março deste ano, 198 pessoas foram internadas no estado por conta de queimaduras.

Embora a Sesab não tenha informado as causas, um estudo publicado pela Sociedade Brasileira de Queimaduras (SBQ) aponta a relação direta entre a incidência das queimaduras por líquidos inflamáveis, especialmente o álcool, e o preço do gás liquefeito de petróleo.

José Adorno, cirurgião plástico e presidente da associação, explica que a substituição do gás por essas substâncias é a responsável por grande parte dos acidentes domésticos, especialmente durante a pandemia. A flexibilização da venda da substância pela Anvisa e, consequentemente, o uso indiscriminado do álcool, apenas intensificaram a quantidade de casos.

"Em levantamento que fizemos de março e setembro de 2020, em publicação que será ainda lançada, verificamos que tivemos cerca 700 internações motivadas por álcool em todo o Brasil, e mais de metade dos casos foram acidentes domésticos. Então, a correlação de casos de queimadura acontece tanto com o uso maior do álcool, quanto com o aumento dos preços do gás", esclarece Adorno.

A SBQ foi fundada em 1995 e é uma entidade associativa que reúne multiprofissionais, e que promove campanhas de prevenção de acidentes.

Em 2017, também foi lançada pela SBQ uma pesquisa que aponta que, com o aumento do preço do GLP, também houve um aumento de mais de 366% das queimaduras por álcool entre janeiro e novembro de 2017, em comparação ao mesmo período de 2016. O sexo feminino predomina entre as vítimas, e a faixa etária mais acometida é a dos adultos entre 18 e 59 anos. Nesse público, se encaixa não só Lucineide, como Jucelina e Jorgina, suas irmãs.

Em comum entre as três, além dos pais, está o fato de que lidam, todos os dias, com os riscos de queimaduras na cozinha. Jucelina, que usa álcool, carvão e lenha para cozinhar, já se queimou tantas vezes que não consegue contar.

“Minhas vistas doem muito, e sempre me queimo, mas não chegou a ser grave ao ponto de precisar de hospital”, diz.

Desempregada, está em busca de um emprego como faxineira, mas até trabalhos autônomos não estão fáceis de encontrar, explica.

Jorgina Pereira, por sua vez, não chegou a sofrer danos físicos, mas sua casa já. O teto do imóvel, onde mora com quatro crianças, pegou fogo. Embora ninguém tenha ficado ferido, ela não teve condições de deixar de cozinhar de formas alternativas. “É muito perigoso, mas às vezes tenho que usar para não deixar de cozinhar”, diz.

Ela ressalta, no entanto, que só largou o gás há dois meses, quando passou a cozinhar na lenha, com carvão e álcool. Irmã mais velha das três, Jorgina também atua como catadora de materiais recicláveis. “Com esse tempo chuvoso, ganho ainda menos, de R$ 15 a R$ 20 no dia, e vivo da renda do Bolsa Família [Auxílio Brasil]. Com o auxílio, às vezes, não consigo comprar o gás, embora já me ajude muito”, relata.

O mesmo acontece com Lucileide, que tem dois filhos, de 9 e 11 anos. Utiliza um facão para cortar a lenha, que encontra em matos próximos de casa. Para acender o fogo, usa desde sacos plásticos até garrafas de água sanitária. Quando o fogo acende, coloca uma panela em cima, para que ele se mantenha. E guarda as comidas todas na geladeira, rezando para que não chova de novo. Assim tem vivido há quatro meses, quando as dificuldades se intensificaram.

"Quando consigo um trabalho, é para comprar alimentação para casa, um feijão, um arroz, que agora tá até caro demais. Pior é quando chove, que preciso deixar estiar para fazer alguma coisa, já que a lenha fica molhada, e aí nem consigo acender o fogo", lamenta.

Política de preços internacional
O aumento do preço do gás de cozinha está diretamente ligado ao acréscimo de preço do barril de petróleo na cotação internacional, como explica o economista e integrante do Conselho Regional de Economia da Bahia (Corecon-BA), Alex Gama.

Tanto a Petrobras, como a Acelen, empresa privada que controla a Refinaria de Mataripe desde dezembro de 2021, utilizam a política de Preço de Paridade Internacional (PPI). Esse formato considera o preço dos combustíveis praticado no mercado externo.

"A política das empresas é que haja um reajuste toda vez que ocorra desvalorização do câmbio e aumento do preço do barril. O preço do gás de cozinha, em cerca de R$ 120, representa quase 10% do salário mínimo, o que pesa bastante na cesta de consumo das famílias", diz o economista.

Para Gama, a principal causa do aumento do preço do petróleo no exterior ainda é a guerra entre Rússia e Ucrânia, que reduziu a oferta do gás no mercado europeu. O confronto já se desenrola há mais de 100 dias.

O aumento dos preços, no entanto, é anterior à pandemia. Em março de 2020, o preço do botijão de gás na Bahia custava cerca de R$ 65, de acordo com dados da Agência Nacional do Petróleo (ANP). Em novembro do ano passado, o produto já era encontrado por R$ 95 no estado.

"Antes da pandemia, o gás de 13 quilos custava aproximadamente 5,8% do salário mínimo. Após a pandemia passou para 7,3% do salário. Hoje essa relação já passa de 8%. Em resumo: o baiano está tendo que se virar nos trinta para comprar", diz o também economista Cleiton Silva.

A desvalorização que a moeda brasileira sofre desde 2020 também explica os aumentos progressivos de preço.


Há formas alternativas e seguras de cozinhar?
De acordo com o major bombeiro militar Leandro Vialto, é possível cozinhar de forma segura sem a utilização de substâncias inflamáveis, desde que sejam usados equipamentos especificamente desenvolvidos para a tarefa, como panela, fornos e fritadeiras elétricas, fogão e forno à lenha ou churrasqueira.

"Líquidos inflamáveis são muito voláteis, o que significa, a grosso modo, que geram uma nuvem inflamável ao seu redor. No momento de tentar acender o fogo, há o risco de ter uma explosão dessa nuvem, gerando queimaduras e até mesmo espalhando o combustível em lugares que não se pretendia, começando, assim, um incêndio", explica.

Em casos como esses, Vialto reforça que, se as chamas de fato se espalharem no caso do uso de um combustível líquido, a chance de apagar só existe se a quantidade de combustível for pequena. O tamanho de um copo, por exemplo. Para isso, a pessoa deve jogar bastante água de forma pulverizada. Se a ação não estiver resolvendo, o recomendado é evacuar o local e ligar para o telefone 193.

Ele também ressalta as situações em que nunca se deve jogar água. É o caso de uma panela em óleo conversível, como óleo de soja, por exemplo. "A água vira vapor ao entrar em contato com o óleo e empurra o óleo para o alto, formando uma nuvem combustível que pega fogo rapidamente e com muita energia, causando um incêndio e grandes queimaduras na pessoa que tentou jogar a água", alerta.

Por isso, o recomendado é simplesmente apagar o fogão abaixo da panela e tampá-la, ou utilizar um pano de algodão molhado para cobrir. Sem o contato com o oxigênio, o fogo apaga. A panela deve ser destampada apenas depois de 10 minutos.

Como proceder em casos de ferimentos
A médica dermatologista Camila Ribeiro chama atenção para que as vítimas de queimaduras não apelem para cuidados caseiros, especialmente se a lesão for de segundo grau. Diferentemente das lesões de primeiro grau, as de segundo contém o aparecimento de bolhas no local. "As pessoas às vezes colocam manteiga, pó de café, clara de ovo, o que não deve ser feito", aponta.

A recomendação é resfriar o local machucado com água corrente fria ou um pano limpo úmido. O uso de gelo deve ser evitado porque tem efeito de queimadura. "Em todos os casos de queimaduras mais profundas, em que haja formação de bolhas, acometimento extenso ou de áreas sensíveis, o paciente deve sempre procurar o pronto atendimento", indica a médica. As bolhas nunca devem ser estouradas em casa porque há risco de infecção.

As queimaduras são divididas em três tipos. Nas de primeiro grau, menos graves, não ocorre o aparecimento de bolhas, pois apenas a camada mais superficial da pele é atingida. No caso das medianas, de segundo grau, além de afetar a epiderme, parte da derme é acometida, por isso são mais profundas. As mais graves, de terceiro grau, prejudicam músculos e ossos.

"A queimadura de terceiro grau é gravíssima, geralmente o paciente interna, vai para a UTI, e há chances de óbito. Elas não são tão frequentes e costumam precisar de cirurgia", explica Camila Ribeiro.

Procurada, a Sesab informou que qualquer Unidade de Pronto Atendimento pode fazer o atendimento inicial. Se o caso for mais grave, o paciente é encaminhado para o Hospital Geral do Estado (HGE), referência nesse tipo de tratamento.

Auxílio Gás
Há ainda a possibilidade da inscrição no programa Auxílio Gás, promovido pelo Governo Federal, que paga um valor equivalente a 50% do valor médio do botijão de 13 kg. A Caixa Econômica Federal pagará o benefício em conjunto com o Auxílio Brasil, entre os dias 17 e 30 de junho. O Ministério da Cidadania ainda não informou quanto cada família receberá neste mês.

São elegíveis ao Programa Auxílio Gás dos Brasileiros todas as famílias inscritas no CadÚnico, com renda familiar mensal menor ou igual a meio salário-mínimo por pessoa, inclusive as famílias que recebem benefícios de programas do governo. Além disso, podem requerer famílias que tenham alguma pessoa que mora na mesma casa, que recebe o Benefício de Prestação Continuada (BPC) da assistência social, inscritas ou não no CadÚnico.

Grupos familiares com mulheres vítimas de violência doméstica que estejam sob o monitoramento de medidas protetivas de urgência terão preferência na concessão do benefício.

Para receber o auxílio, é necessário fazer um registro no aplicativo Caixa Tem, por onde é realizado o repasse do benefício. Ainda é possível movimentar e utilizar o auxílio para realizar pagamentos de contas e compras com os benefícios do governo, com um cartão de débito virtual.

Caso tenha dúvidas em relação a ter direito ou não ao benefício, entre em contato com o Canal de Atendimento ao Cidadão, através do número 111.





*Correio da Bahia

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