Central monitora trânsito da capital e flagra situações bizarras no dia-a-dia de Salvador
O caso é para qualquer cidadão se
identificar: dia 1º do mês, a pessoa desce do ônibus e corre até o banco
na mesma rua, para pagar as contas da rodada. Depois, pega o buzu de
novo e segue para seu destino. Uma situação rotineira, se não fosse por
um detalhe – o cidadão em questão é um motorista de ônibus, que saiu do
coletivo que dirigia, fez os pagamentos e voltou para o veículo como se
nada tivesse acontecido.
Parece
até brincadeira, mas o agente de trânsito Luiz Alberto Freitas, 52
anos, já se deparou até com essa história, nos cinco meses trabalhando
no Centro de Controle Operacional (CCO) da Secretaria Municipal de
Mobilidade (Semob), na sede do órgão, em Amaralina.
Inaugurado em abril de 2015, o CCO funciona
24 horas justamente para monitorar como está funcionando o sistema de
transporte público em Salvador. Resultado: desde que foi implantado, as
autuações a ônibus já geraram cerca de 2 mil multas.
Enquanto observa se os coletivos não param em
pontos, se demoram a sair das garagens ou se fazem algum desvio de
itinerário, vez ou outra – não é tão frequente, ele admite – aparece uma
dessas.
Por
turno, 24 pessoas trabalham na central. Cada uma delas fica diante de
duas telas de computador, como a agente Rosângela Muniz, 56 anos (Foto: Mauro Akin Nassor/CORREIO)
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“Como
fico de 6h às 12h, o importante é ver se os horários de partida das
linhas estão sendo cumpridos. Quando não estão, o que a gente mais
escuta é que falta operador. O motorista se atrasou, dormiu demais...”,
conta Luiz, que, antes fiscalizava a saída dos ônibus nas garagens na
região do Iguatemi.
Durante uma
manhã, o CORREIO acompanhou a rotina no centro, onde trabalham 24
pessoas por turno, em três períodos. A maioria é composta por servidores
da Semob, mas também há estagiários do curso de Tecnologia em
Transportes Terrestres, da Universidade Federal da Bahia (Ufba). Cada um
deles fica em uma mesa, diante de duas telas de computador.
Os
monitores podem gerar até 100 visualizações diferentes, a partir das
informações que recebem – que inclui saber se os coletivos já passaram
por cada ponto (assim, definem se estão atrasados) e qual é a velocidade
de cada um (quando estão a menos de 25 km/h, é criado um “mapa de
calor” que indica engarrafamentos).
Inteligente
Segundo
o secretário municipal de Mobilidade, Fábio Mota, a fiscalização do
transporte foi otimizada. “Antes, a gente tinha uma prancheta e um
fiscal em cada garagem e estação, mas não tínhamos como colocar um
fiscal em cada ponto, para fiscalizar 600 linhas. Hoje, Salvador
monitora 100% das linhas. A ideia é ter um transporte inteligente”.
Foi
por meio disso que o agente de trânsito e transportes Jeferson
Oliveira, 41, conseguiu identificar situações inusitadas. “Já indicaram
que o veículo está quebrado e transferiram os passageiros para outro.
Mas, em segundos, o ônibus começa a andar e vai para a garagem. Como
pode estar quebrado?”. Se o ônibus voltar para a garagem antes do
horário de recolhimento, a empresa pode ser autuada.
No
entanto, o presidente do Sindicato dos Rodoviários, Hélio Ferreira,
contesta. “O que existe é um bocado de motorista largando depois do
horário por conta dos problemas de mobilidade. O motorista é
profissional, é responsável”.
Segundo
a Semob, o CCO só detecta as infrações e procura a empresa para saber o
motivo do problema. O agente Luiz, por exemplo, contou que acompanha
entre 40 e 50 infrações por dia.
Segurança
Há
situações mais graves. No ano passado, em plena madrugada, um motorista
puxou uma faca em direção a um passageiro. A informação veio do
aplicativo Cittamobi para o CCO. Ao todo, mais de 15 mil mensagens já
foram enviadas por usuários pelo app.
“O
passageiro enviou as informações algumas horas depois, mas entramos em
contato com a empresa, que verificou o fato e quem era o motorista. O
resultado foi uma demissão”, conta o coordenador do CCO, Volney
Teixeira.
Para o secretário municipal Fábio Mota (de camisa listrada), o CCO otimizou a gestão do transporte público em Salvador (Foto: Mauro Akin Nassor/CORREIO)
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O
problema das situações relacionadas a violência – incluindo assaltos – é
que elas só chegam ao CCO algum tempo depois de terem ocorrido. Nesses
casos, o motorista ou cobrador entra em contato com o centro da empresa
em questão (cada uma das três concessionárias tem sua própria central,
que está sempre se comunicando com o CCO). É a empresa quem informa ao
CCO – exceto quando passageiros fazem isso, pelo app.
Em
janeiro deste ano, um coletivo foi sequestrado para levar moradores de
Canabrava ao enterro de um traficante. Nesse caso, houve um desvio de
itinerário. Segundo Volney Teixeira, as razões mais frequentes para
desvios são obras ou acidentes na via.
Mas,
dessa vez, o motorista foi obrigado. “Lembro até hoje a linha: 1348
(Canabrava-Lapa). O motorista avisou à empresa o que estava acontecendo e
só depois ficamos sabendo. Não dá para chamar a polícia imediatamente
na maioria dos casos, porque, quando ficamos sabendo, já acabou”,
explica a chefe de setor do CCO, Eliene Rocha, 46.
No
CCO, há uma cadeira reservada a um representante da Secretaria da
Segurança Pública do Estado (SSP-BA), que também poderia participar do
monitoramento 24 horas, oferecendo auxílio em situações de violência.
Porém,
desde a abertura da central, nenhum representante da secretaria ocupou o
espaço. Procurada, a assessoria da SSP informou que já tem dois centros
de monitoramento. Um deles funciona no mesmo espaço do serviço 190. O
outro, o Centro Integrado de Comando e Controle Regional, está ativo
desde 2013.
“A SSP
reafirma a parceria com os diversos órgãos da prefeitura na realização
do monitoramento da cidade, inclusive, colocando à disposição do
município as imagens capturadas, em caso de necessidade”, informou o
órgão.
Correio



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