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Pititinga some do Rio Vermelho e preocupa pescadores de Salvador


Por quase duas décadas, o vigilante Ailton Costa manteve um ritual simples no bairro do Rio Vermelho, em Salvador. Ao sair do trabalho, passava na Colônia de Pescadores para garantir o tira-gosto do fim de semana: a pititinga. Barata, abundante e tradicional, o pequeno peixe fazia parte da rotina local. Hoje, virou raridade — quando não, lembrança.

A ausência da pititinga não afeta apenas Ailton. O peixinho praticamente desapareceu das redes e das mesas do Rio Vermelho, território simbólico da fé em Iemanjá. Nos últimos anos, inclusive, pedidos feitos à Rainha do Mar durante a tradicional festa do 2 de Fevereiro tiveram um único foco: o retorno da espécie.

Alguns sinais surgiram, ainda que tímidos. Em Itapuã, pequenos cardumes voltaram a ser avistados recentemente, após um longo período sem registros. Para Nilo Silva Garrido, diretor da Colônia de Pescadores do Rio Vermelho, isso já é motivo de esperança. 

“Depois de muito tempo, a pititinga voltou a aparecer, mas ainda bem distante daqui”, relata.

Um desaparecimento traumático

Nilo, conhecido como Nilinho, guarda uma lembrança que marcou definitivamente a comunidade pesqueira. Em abril de 2023, ele presenciou o que descreve como um colapso ambiental. Ao mergulhar próximo ao porto, encontrou dezenas de pititingas mortas no fundo do mar, enquanto outras agonizavam na superfície em busca de oxigênio.

“Era como uma nuvem de peixe. Elas simplesmente começaram a morrer, uma atrás da outra. Dois dias depois, não havia mais nenhuma”, conta. Desde então, o Rio Vermelho nunca mais viu um cardume da espécie.

Segundo ele, a ausência de peixes jovens naquele episódio indica que algo interrompeu o ciclo natural de reprodução. 

“Naquele dia só tinham as grandes. Depois disso, sumiram completamente.”

Migração, poluição e pesca predatória

Hoje, a pititinga ainda pode ser encontrada em pontos isolados da Baía de Todos os Santos, especialmente em áreas menos impactadas, como Maragogipe e Salinas das Margaridas. Em Salvador, quando chega, vem de fora — e cara. O quilo pode custar até R$ 50, superando o preço do camarão.

Em Itapuã, pescadores adotaram regras próprias: pesca restrita ao período da manhã e proibição de redes predatórias. A preocupação é evitar repetir erros do passado.

“Antes se pescava com tarrafa, que deixava os peixes menores escaparem. Depois vieram redes finas, que capturavam tudo. Isso, somado à poluição e às mudanças no clima, contribuiu para o sumiço”, explica Nilinho.

A degradação do Rio Lucaia, que deságua no mar do Rio Vermelho, também é apontada como fator decisivo. Onde antes havia camarão, siri e diversidade, hoje restam poucos sinais de vida.

Substituição no prato e impacto no ecossistema

Com a escassez, outro peixe passou a ocupar o lugar da pititinga: o xangó. Maior e mais barato, ele tem sido vendido, muitas vezes, como se fosse a espécie tradicional — especialmente em bares e restaurantes menores.

“A pititinga verdadeira quase não aparece mais. Quando aparece, vem de longe e chega cara”, relata a comerciante Ilma Silva.

O problema vai além da culinária. A pititinga é peça-chave na cadeia alimentar marinha. Sua ausência afeta peixes maiores que dependiam dela como alimento — e até como isca — criando um efeito dominó no ecossistema costeiro.

Mudança climática e incertezas

Para o biólogo e coordenador de pesca artesanal da Bahia Pesca, Roberto Pantaleão, a mudança climática é um fator central, mas não único. Ele lembra que outras espécies tradicionais do litoral de Salvador também desapareceram ao longo dos anos.

“O chicharro, por exemplo, era abundante e sumiu completamente. Isso mostra que algo maior está acontecendo”, afirma.

Em praias como Jauá, pescadores relatam o mesmo fenômeno: sumiço da pititinga e, junto com ela, de outras espécies que dependiam do pequeno peixe.

Fé que resiste, mar que pede cuidado

Entre flores, espelhos e promessas lançadas ao mar todo 2 de Fevereiro, os pescadores seguem pedindo à Iemanjá que a pititinga volte a nadar em abundância pelas águas de Salvador. Pequenos sinais surgem, como resposta à fé popular. Mas a própria comunidade sabe: não há milagre que sobreviva sozinho.

Sem enfrentamento da poluição, controle da pesca predatória e cuidado com o mar, a pititinga corre o risco de permanecer apenas na memória afetiva da cidade — como saudade frita em óleo quente, lembrada entre histórias, fé e silêncio das redes vazias.




Por Ataíde Barbosa/Foto: Moysés Suzart

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