Bronze proibido: a busca pela “marquinha perfeita” desafia alertas sobre câncer de pele em Salvador
O quarto escurece, as fitas são ajustadas ao corpo e as lâmpadas artificiais começam a emitir uma luz intensa. Minutos depois, o resultado aparece diante do espelho: pele dourada, marcas definidas e a sensação imediata de autoestima elevada. Em Salvador, onde o bronzeado sempre ocupou espaço de destaque nos padrões de beleza, o bronzeamento artificial segue conquistando clientes, apesar de proibido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) há mais de 15 anos.
A procura pela chamada “marquinha perfeita” ganhou ainda mais força nos últimos anos impulsionada por redes sociais, influenciadoras digitais e pela associação cultural entre pele bronzeada, sensualidade e autocuidado. O procedimento, porém, continua cercado de riscos e alvo constante de fiscalização sanitária.
Na última semana, seis espaços que ofereciam bronzeamento artificial foram interditados em Salvador e em Lauro de Freitas durante uma operação conjunta. Em cinco estabelecimentos, além das máquinas de bronzeamento, fiscais encontraram produtos vencidos, adulterados ou sem autorização sanitária.
Embora os equipamentos atuais sejam diferentes das antigas câmaras populares nos anos 2000, especialistas alertam que o princípio continua o mesmo: a exposição intensa à radiação ultravioleta, principalmente UVA, capaz de penetrar profundamente na pele e provocar danos cumulativos.
A proibição da Anvisa existe desde 2009, após a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer, ligada à Organização Mundial da Saúde (OMS), classificar os aparelhos de bronzeamento artificial como cancerígenos para humanos.
Mesmo diante dos alertas, muitas pessoas seguem recorrendo ao procedimento em busca de bem-estar e valorização da aparência. A servidora pública Ellen Dias, de 25 anos, moradora de Mata de São João, conta que durante muito tempo evitou fazer bronzeamento por medo de queimaduras e câncer de pele. A mudança aconteceu após ouvir relatos de mulheres que associavam o procedimento ao aumento da autoestima.
Segundo ela, a influência das redes sociais também teve peso importante na decisão. A confiança cresceu depois que viu uma influenciadora abrir o próprio espaço de bronzeamento. Desde então, passou a realizar sessões regularmente.
“Você se olha no espelho e se sente mais bonita, mais arrumada. A marquinha acaba virando parte da autoestima”, relata.
Para o dermatologista Gustavo Machado, membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia, o principal problema está justamente na ideia equivocada de que o bronzeado representa saúde.
“O bronzeamento é uma resposta de defesa da pele após uma agressão causada pela radiação ultravioleta”, explica o médico.
Segundo ele, tanto a exposição natural ao sol quanto o bronzeamento artificial provocam danos ao DNA das células, aumentando o risco de envelhecimento precoce, manchas e câncer de pele ao longo dos anos.
O oncologista Carlos Frederico Lopes Benevides, professor da Universidade Federal da Bahia, afirma que os danos costumam ser silenciosos e progressivos, principalmente quando a exposição acontece de forma repetida ainda na juventude.
De acordo com o especialista, queimaduras frequentes e episódios intensos de vermelhidão elevam significativamente o risco de desenvolvimento de câncer de pele no futuro.
Mesmo com os alertas médicos e a proibição em vigor no país, o bronzeamento artificial continua circulando entre tendências de beleza e padrões estéticos cada vez mais reforçados no ambiente digital — um reflexo da pressão pela aparência perfeita que segue colocando a saúde em segundo plano.
Por Ataíde Barbosa/Foto: Imagem gerada por Inteligência Artificial/Metropress



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