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Servidor é condenado após amputar o próprio pé para tentar receber R$ 1,5 milhão em seguros


Durante anos, a história de Vanderley dos Santos Gomes foi tratada como um caso de extrema violência. A versão apresentada por ele às autoridades em agosto de 2019 descrevia um cenário digno de um thriller policial: um servidor público sequestrado por criminosos, levado para uma região isolada e brutalmente mutilado durante um suposto assalto no Recôncavo baiano.

Mas o que inicialmente parecia um crime bárbaro acabou se transformando em um dos mais incomuns casos de fraude investigados pela Justiça brasileira.

Quase sete anos após os acontecimentos, o caso teve seu desfecho definitivo. A Justiça concluiu que não houve assalto, sequestro nem tortura. Segundo as investigações conduzidas pela Polícia Civil e pelo Ministério Público da Bahia, Vanderley simulou toda a ação criminosa com o objetivo de receber indenizações de seguros contratados poucas semanas antes do episódio que resultou na amputação de seu pé direito.

A decisão encerra uma longa apuração que mobilizou policiais, peritos, promotores e representantes das seguradoras envolvidas. O servidor foi condenado por estelionato, teve os recursos rejeitados em segunda instância e não possui mais meios legais para reverter a sentença.

O relato que chocou a Bahia

Na madrugada de 10 de agosto de 2019, Vanderley foi encontrado ferido em uma área rural do município de São Gonçalo dos Campos. Seu pé direito havia sido amputado e, segundo seu relato, ele havia sido vítima de uma ação criminosa extremamente violenta.

À polícia, ele contou que saiu de Feira de Santana em direção a Cruz das Almas na noite anterior. Depois de desembarcar, teria aguardado um amigo que nunca apareceu. Ainda de acordo com sua versão, após deixar uma unidade de saúde da cidade, foi surpreendido por homens armados que o obrigaram a entrar em um carro.

O servidor afirmou que foi agredido durante o trajeto, teve dinheiro e objetos pessoais roubados e acabou levado para uma estrada de terra. Lá, disse que os criminosos o retiraram do veículo, o imobilizaram e amputaram seu pé antes de abandoná-lo.

O relato provocou grande repercussão. O nível de violência descrito chamou atenção das autoridades e gerou comoção. Pouco tempo depois, policiais localizaram o pé amputado e alguns pertences em uma área próxima ao local onde ele havia sido encontrado.

No entanto, à medida que a investigação avançava, surgiam dúvidas cada vez maiores sobre a consistência da história.

O detalhe que despertou suspeitas

A principal linha de investigação passou a analisar a vida financeira e os contratos firmados pelo servidor nos meses anteriores ao episódio.

Os investigadores descobriram que Vanderley havia contratado quatro seguros de vida e acidentes pessoais em um intervalo inferior a um mês. As apólices foram assinadas entre junho e julho de 2019, apenas algumas semanas antes da amputação.

Somados, os contratos poderiam garantir uma indenização superior a R$ 1,5 milhão em caso de invalidez permanente.

Para os investigadores, a sequência temporal era um elemento difícil de ignorar.

Além do curto espaço entre a contratação dos seguros e o sinistro comunicado às empresas, chamou atenção o fato de Vanderley não possuir histórico de contratações semelhantes e ter assumido coberturas elevadas para sua realidade financeira.

Na época, ele era servidor técnico-administrativo vinculado à Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) e recebia remuneração compatível com a função pública que exercia.

Contradições começaram a aparecer

Com o aprofundamento da apuração, diversos pontos da narrativa passaram a ser questionados.

As autoridades identificaram dificuldades para comprovar etapas fundamentais da história apresentada pelo servidor. Não surgiram evidências robustas que demonstrassem sua passagem por alguns dos locais citados no relato. Também não foram encontrados elementos capazes de sustentar a existência do suposto sequestro.

Outro aspecto que chamou atenção foi a falta de informações precisas sobre os autores do crime. Embora tenha descrito detalhes da contratação dos seguros, Vanderley afirmou não se lembrar de características importantes dos supostos sequestradores, do veículo utilizado ou mesmo do instrumento responsável pela amputação.

Para investigadores e magistrados, tais lacunas enfraqueciam significativamente a credibilidade da versão apresentada.

A análise pericial

Além da investigação policial tradicional, o caso contou com avaliações técnicas sobre a natureza da lesão.

Especialistas analisaram as circunstâncias da amputação e buscaram verificar se os ferimentos eram compatíveis com a dinâmica descrita pelo servidor.

Os laudos produzidos durante a investigação contribuíram para a formação do conjunto probatório que levou o Ministério Público a concluir que a mutilação não havia ocorrido da forma narrada pelo acusado.

Embora os detalhes técnicos tenham permanecido restritos aos autos, o material pericial foi considerado peça importante para desmontar a hipótese de uma ação criminosa praticada por desconhecidos.

A denúncia do Ministério Público

Com base nos elementos reunidos ao longo da investigação, o Ministério Público da Bahia denunciou Vanderley por estelionato.

A acusação sustentou que ele teria criado deliberadamente uma situação capaz de gerar o pagamento das indenizações previstas nos contratos de seguro.

Segundo a denúncia, o objetivo era obter vantagem econômica indevida mediante fraude, utilizando uma falsa narrativa de crime violento para justificar o recebimento dos valores.

Os promotores apontaram que a sucessão de fatos, associada ao curto intervalo entre as contratações e o pedido de indenização, demonstrava planejamento prévio.

O entendimento da Justiça

Ao julgar o caso, a Justiça considerou que a versão apresentada pelo servidor não resistia à análise das provas reunidas durante o processo.

A sentença destacou que não havia explicação plausível para que criminosos desconhecidos sequestrassem uma pessoa sem histórico de conflitos, a transportassem para outro município e realizassem uma amputação sem qualquer motivação aparente.

Também foi considerado relevante o fato de Vanderley ter solicitado o pagamento das indenizações poucos dias após o episódio.

Para o Judiciário, o conjunto de indícios e provas apontava para uma fraude cuidadosamente planejada, destinada a obter recursos das seguradoras.

Posteriormente, o Tribunal de Justiça da Bahia manteve a condenação e reafirmou que os elementos reunidos durante a instrução processual demonstravam a intenção de enganar as empresas responsáveis pelos seguros.

Um caso raro no país

Especialistas que acompanham fraudes contra seguradoras afirmam que o caso foge completamente dos padrões normalmente encontrados.

Embora existam registros de tentativas de obtenção de indenizações por meio de acidentes simulados ou lesões provocadas intencionalmente, situações envolvendo amputações de grande porte são extremamente incomuns.

Por essa razão, o episódio passou a ser tratado como um dos casos mais impactantes já enfrentados por profissionais especializados no combate a golpes contra o setor segurador.

Além da repercussão jurídica, o caso deixou uma consequência irreversível: independentemente da condenação e do fracasso da fraude, a mutilação sofrida por Vanderley permanecerá como uma marca permanente de uma tentativa de enriquecimento ilícito que terminou nos tribunais.

Com o trânsito em julgado da ação penal, a condenação tornou-se definitiva. O servidor foi intimado para iniciar o cumprimento da pena, encerrando um processo que levou anos para ser esclarecido e que transformou uma história inicialmente vista como um ato de extrema violência em um dos episódios mais surpreendentes da Justiça baiana.




Por Ataíde Barbosa/Foto: Reprodução

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