Mais de 4,2 mil baianos aguardam transplantes; hospitais buscam ampliar doação de órgãos e salvar vidas
A esperança de receber um órgão ou tecido e conquistar uma nova oportunidade de vida faz parte da realidade de milhares de baianos. Atualmente, 4.212 pessoas aguardam por um transplante na Bahia, enquanto o estado contabilizou 696 procedimentos realizados entre janeiro e agosto de 2026.
Os dados revelam um desafio para a rede estadual de saúde: ampliar o número de doações e garantir que os órgãos disponíveis cheguem aos pacientes que necessitam dos procedimentos. Mais de 98% das pessoas que estão na fila aguardam transplantes de rim ou córnea.
Neste mês de setembro, marcado pela campanha Setembro Verde, dedicada à conscientização sobre a doação de órgãos e tecidos, profissionais de saúde reforçam a importância de aperfeiçoar os procedimentos hospitalares e incentivar o diálogo das famílias sobre a doação.
UTIs são fundamentais para ampliar as doações
A Associação de Medicina Intensiva Brasileira – Regional Bahia (AMIB-BA) tem defendido o fortalecimento das Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) como parte das estratégias para ampliar a identificação de potenciais doadores.
Representantes da entidade se reuniram com a Secretaria da Saúde do Estado da Bahia (Sesab) para avaliar indicadores e discutir medidas destinadas a melhorar o funcionamento do sistema estadual de transplantes.
Entre as prioridades estão a capacitação permanente dos profissionais, a identificação de possíveis doadores, a condução adequada dos protocolos de morte encefálica e a preservação das condições clínicas dos pacientes que podem se tornar doadores.
A médica neurointensivista Juliana Caldas, diretora científica da AMIB-BA no biênio 2026–2027, destaca que as equipes de terapia intensiva desempenham uma função essencial nesse processo, já que muitos casos de morte encefálica são identificados dentro dessas unidades.
Segundo a especialista, o treinamento dos profissionais contribui para que os procedimentos sejam realizados com segurança, respeitando os critérios médicos e garantindo melhores condições para uma possível doação.
Agilidade no diagnóstico pode evitar a perda de órgãos
Outro aspecto considerado importante pelos especialistas é o tempo necessário para a conclusão do diagnóstico de morte encefálica.
O protocolo exige avaliações clínicas realizadas por médicos diferentes e devidamente habilitados, além dos demais procedimentos previstos nas normas médicas.
A demora excessiva entre as etapas pode comprometer a estabilidade clínica do potencial doador e dificultar a preservação dos órgãos.
Por esse motivo, a AMIB-BA defende que o intervalo entre o primeiro e o segundo exame clínico não ultrapasse 12 horas, respeitando os critérios legais e médicos aplicáveis a cada situação.
A medida busca tornar o processo mais eficiente, sem comprometer a segurança do diagnóstico, e reduzir o tempo de espera das famílias por informações sobre a condição do paciente.
Recusa familiar ainda representa um desafio
Além dos procedimentos hospitalares, a conscientização da população é considerada fundamental para ampliar o número de transplantes.
De acordo com Juliana Caldas, a negativa familiar na Bahia se aproxima de 70%, situação que evidencia a importância de oferecer informações claras sobre o processo de doação.
A legislação brasileira exige a autorização da família para a retirada de órgãos de pessoas falecidas. Por isso, conversar antecipadamente com os familiares e manifestar o desejo de ser doador pode contribuir para que essa decisão seja tomada de maneira consciente.
Os especialistas também destacam a necessidade de acolhimento humanizado, respeito ao momento de luto e esclarecimento de dúvidas sobre a morte encefálica e os procedimentos envolvidos na doação.
Bahia trabalha para ampliar transplantes no interior
A expansão dos serviços especializados para municípios do interior também integra as ações voltadas ao fortalecimento da rede estadual de transplantes.
Atualmente, a Bahia dispõe de serviços de transplante em Salvador, Feira de Santana, Vitória da Conquista, Itabuna e Juazeiro.
Segundo o médico Eraldo Moura, coordenador do Sistema Estadual de Transplantes da Bahia (COSET/Sesab), existem iniciativas em andamento para ampliar a oferta de procedimentos em outras regiões.
Entre as ações previstas estão a expansão dos transplantes de córnea para Teixeira de Freitas, Jequié e Barreiras, além da ampliação dos serviços de transplante renal em Juazeiro, Ilhéus e Itabuna.
Também estão em desenvolvimento iniciativas relacionadas ao transplante de medula óssea no Hospital Geral Roberto Santos e no Hospital Regional de Juazeiro.
A descentralização dos serviços busca facilitar o acesso dos pacientes que vivem longe da capital e precisam percorrer grandes distâncias para realizar consultas, exames e procedimentos especializados.
Doar órgãos é uma decisão que pode transformar vidas
Diante de uma fila que ultrapassa quatro mil pessoas, a ampliação das doações depende de diferentes fatores, desde a preparação das equipes médicas até a participação consciente das famílias.
A identificação de potenciais doadores, o cumprimento dos protocolos hospitalares e o fortalecimento da rede de transplantes são medidas que podem contribuir para aumentar o número de procedimentos realizados no estado.
Neste Setembro Verde, a campanha reforça uma orientação importante: quem deseja ser doador de órgãos deve conversar com seus familiares e comunicar essa vontade.
A decisão, tomada em um momento de profunda dor para uma família, pode representar uma nova oportunidade de vida para pessoas que aguardam por um transplante.
Por Ataíde Barbosa/Foto: Ministério da Saúde




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