Psicóloga Maíra Ruas é peça-chave na reconstrução mental do Vitória
Em apenas uma semana, entre 25 e 31 de agosto, o Vitória experimentou dois extremos que marcaram sua história recente. Primeiro, a dor do vexame: a goleada por 8 a 0 sofrida diante do Flamengo, maior derrota da era dos pontos corridos. Poucos dias depois, a reviravolta: um triunfo suado por 1 a 0 contra o Atlético-MG, celebrado como resposta de dignidade pela torcida.
No centro dessa transformação silenciosa esteve Maíra Ruas, psicóloga do clube. Com 26 anos de experiência na área esportiva, ela conduziu um trabalho discreto e consistente para resgatar a confiança do grupo. Após a vitória sobre o Galo, o técnico interino Rodrigo Chagas não escondeu os elogios à profissional, destacando sua importância no processo de recuperação mental.
Para Maíra, a goleada foi um trauma que exigiu reconstrução imediata. “Nenhum jogador dedica a vida para viver um resultado como aquele. É uma marca que fica na história. O desafio foi recuperar a autoestima e mostrar que a força de um grupo se mede na capacidade de reagir”, disse.
O plano não envolveu mudanças drásticas, mas sim a intensificação da rotina já estabelecida: atendimentos individuais e trabalhos em grupo ganharam ainda mais foco. A psicóloga acredita que a experiência, apesar de dolorosa, pode se transformar em combustível para a luta contra o rebaixamento. “Foi muito ruim, mas também serviu para fortalecer a união e a resiliência do elenco”, analisa.
Essa não foi a primeira virada mental que Maíra ajudou a construir no Barradão. Em 2023, seu retorno ao clube nos meses finais do Brasileirão coincidiu com a arrancada que livrou o Vitória do rebaixamento e ainda garantiu vaga na Copa Sul-Americana. “Já havia um processo de evolução em andamento, e eu fui como a cereja do bolo, ajudando a consolidar a confiança coletiva”, relembra.
Com passagens por Vasco, Botafogo, Grêmio, Benfica, Cruzeiro e até o Comitê Olímpico Brasileiro, além de participações em três Olimpíadas, Maíra coleciona momentos marcantes. Ainda assim, ela considera os episódios vividos no Vitória como alguns dos mais intensos da carreira. “A goleada foi um dos maiores golpes da minha vida profissional, mas a reação do grupo frente ao Atlético mostra o quanto é possível transformar a dor em força”, reflete.
No dia a dia, o trabalho da psicóloga se soma ao departamento de saúde e performance do clube, em atividades que vão do treino cognitivo à gestão emocional. Longe de ser apenas uma medida emergencial, a psicologia esportiva tem papel constante no fortalecimento do elenco. “As emoções são universais, em momentos bons ou ruins. Cabe a nós manter o equilíbrio e a concentração para sustentar qualquer fase”, explica.
Hoje, se ainda existe resistência à psicologia no futebol, ela é cada vez menor. Para Maíra, a maior prova de confiança vem dos próprios atletas: “Eles são a minha propaganda. Quando percebem a melhora, eles mesmos recomendam o trabalho. Isso faz toda a diferença.”
No Vitória, a lição é clara: não foi apenas a vitória contra o Atlético-MG que devolveu a esperança, mas a certeza de que o aspecto mental também joga — e pode ser decisivo na temporada.
Por Ataíde Barbosa/Foto: Arquivo pessoal




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