Quase mil candidatos mudam autodeclaração racial entre eleições de 2022 e 2026
Um levantamento com dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) identificou que 909 candidatos alteraram a autodeclaração de cor ou raça entre as eleições de 2022 e 2026. O número corresponde a 14,4% dos 6.315 candidatos que disputaram os dois pleitos e apresentaram declarações raciais comparáveis nos registros eleitorais.
O cruzamento das informações foi realizado a partir do CPF dos candidatos, comparando os dados registrados nas eleições de 2022 com as declarações de candidatura de 2026. A base foi atualizada após o encerramento do período de registros.
A mudança mais frequente foi de parda para branca, registrada em 322 casos. Logo depois aparecem os candidatos que fizeram o caminho inverso: 317 pessoas que se declaravam brancas em 2022 passaram a se identificar como pardas em 2026.
Juntas, essas duas alterações representam 639 registros, ou cerca de 70% de todas as mudanças encontradas no levantamento.
Também foram identificadas alterações entre as categorias preta e parda. Em 132 casos, candidatos que se declararam pretos em 2022 passaram a constar como pardos em 2026. No sentido contrário, foram 92 mudanças de parda para preta.
Outras alterações envolveram as categorias amarela, branca, indígena e preta, mas em proporções menores.
Mudança não significa irregularidade
A variação nos registros, por si só, não permite afirmar que houve fraude ou qualquer irregularidade. O levantamento considera apenas a mudança registrada na declaração e não consegue apontar a motivação individual de cada candidato.
Especialistas ouvidos na análise destacam que a autodeclaração racial pode sofrer alterações por diferentes razões, incluindo mudanças na percepção da própria identidade, erros de preenchimento ou até mesmo interferências e orientações durante o processo de registro partidário.
A socióloga Flávia Rios, professora da Universidade de São Paulo (USP) e pesquisadora do núcleo Afro-Cebrap, afirma que alterações semelhantes já foram observadas em eleições anteriores. Segundo ela, o processo burocrático de registro pode influenciar a forma como a declaração é apresentada à Justiça Eleitoral.
A especialista Ana Cláudia Santano, doutora em Ciências Jurídicas e Políticas e coordenadora-geral da Transparência Eleitoral Brasil, também alerta que uma mudança isolada não é suficiente para caracterizar uma irregularidade.
Número cresceu após atualização
O levantamento mais recente também mostra que a quantidade de candidatos com mudança na declaração racial aumentou em relação a uma análise anterior. Até 12 de agosto, haviam sido identificados 786 casos. Com a atualização dos registros de candidatura, o total chegou a 909 alterações.
Para a comparação, foram consideradas as categorias branca, preta, parda, amarela e indígena. Registros sem informação ou classificados como não divulgáveis ficaram fora da análise, assim como CPFs que apresentavam mais de uma declaração racial diferente dentro do mesmo pleito.
Entre os 909 candidatos que mudaram a declaração em 2026, 452 passaram a se declarar pardos, o equivalente a 49,7%. Outros 339 aparecem como brancos (37,3%), 98 como pretos (10,8%), 11 como amarelos (1,2%) e nove como indígenas (1%).
Os números mostram uma movimentação significativa nas autodeclarações entre dois ciclos eleitorais, mas também reforçam a necessidade de analisar cada caso individualmente antes de associar as mudanças a qualquer tipo de irregularidade.
Por Ataíde Barbosa/Foto: Divulgação/gov.br



Nenhum comentário